Com vídeo e fotografia, exposição propõe pensar em um futuro com menos opressão

Com vídeo e fotografia, exposição propõe pensar em um futuro com menos opressão

Com vídeos, fotografias e instalações sonoras, a exposição Não podemos construir o que não podemos imaginar primeiro, aberta hoje (28) no Museu na Imagem e do Som, na zona oeste paulistana, reúne trabalhos que propõem pensar “futuros possíveis ou outros mundos que escapassem da opressão que temos aqui”, como explica um dos curadores, Thiago de Paula Souza.

A ideia surgiu, segundo Souza, durante as pesquisas em parceria com a também curadora Jota Mombaça. “Há um tempo a gente tem escrito e pensado em como esse mundo que nós conhecemos deu errado”. Entre as inspirações da dupla para a mostra está a ficção científica escrita por autores negros, com destaque para a norte-americana Octavia Butler. “Quando a gente pensa em ficção científica pouco se sabe da produção de escritores e intelectuais negros e como eles estavam ligados à construção de outras narrativas”, destaca.

A partir desse sentimento de desencanto com o mundo atual, a exposição busca, de acordo com o curador, apontar novas possibilidades de existência. “É quase um exercício meditativo de pensar e trabalhar outras maneiras de organizar o mundo. Quais seriam as possibilidades e ferramentas. Se a gente consegue pensar em outras realidades que escapem um pouco dessas operações de poder que nós já estamos viciados”. Segundo Souza, essa capacidade de especulação e extrapolação é justamente uma das potencialidades da arte contemporânea.

Fim deste mundo

O curador, no entanto, ressalva que a proposta não é uma fuga da realidade. “Não é uma coisa escapista de maneira nenhuma”, enfatiza. As reflexões sobre outras realidades possíveis levam em consideração os processos de destruição de várias sociedades que levaram a que temos atualmente. “Muitos mundos se acabaram para a gente viver o mundo que a gente vive hoje. Quando os colonizadores europeus invadem as terras das Américas, o mundo de diversos grupos indígenas nativos acabou. A forma como eles concebiam o universo, a cosmologia deles foi tudo destruído”, compara.

“Não é pensar no fim da Terra. Não é um fim do mundo cristão, apocalíptico. É mais um exercício de construir uma outra coisa que não vivemos agora. É claro que é como uma utopia, um delírio”, acrescenta. Neste contexto, a artista Rosa Luz levou para a mostra uma foto-manifesto em que propõe um novo cenário para a arte contemporânea. “E se arte fosse travesti?”, indaga o curador. “É uma forma não só de lutar por representatividade trans na arte, mas também quase como um movimento provocador de imaginação e de imaginação negra”.

Na performance Entrada de Serviço, de Rafael RG, o artista trabalha os códigos da racialidade brasileira para, segundo o curador, “questionar essa suposta cordialidade brasileira. Enfim, encarar um pouco dessa violência racial tão presente”. Esse é, de acordo com Souza, um pouco do tom da exposição: mostrar o que existe de errado no presente para pensar em outros futuros. “Os trabalhos estão em uma negociação permanente do que a gente precisa deixar evidente para mudar”.

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